quinta-feira, 8 de setembro de 2016

OS JOGOS PARALÍMPICOS, OS DOS DEFICIENTES

Começam hoje os Jogos Paralímpicos.

Um dia os Jogos Paralímpicos deixarão de ser Jogos Paralímpicos e passarão ser apenas Jogos Olímpicos com a realização de todas as provas de todos os desportistas no mesmo período de tempo.

Até lá, todas as notícias relativas aos excelentes resultados de muitos dos atletas portugueses e das dificuldades e obstáculos que enfrentam deveriam ser colocadas na secção de política e não apenas na secção de desporto.

Talvez tivessem o relevo e produzissem o efeito que merecem. A questão é que as primeiras páginas, mesmo no desporto, não são para estes indivíduos, as pessoas com deficiência não têm "glamour", não enchem estádios e fazem gastar milhões, não são colunáveis, são apenas, simplesmente, campeões, a sério.

Texto de Zé Morgado

"ESCOLAS PÚBLICAS REJEITAM ALUNOS"

O professor Joaquim de Azevedo, que respeito e com quem muitas vezes concordo, tem hoje no Público um texto, “As escolas públicas rejeitam alunos”, que merece umas notas.
Ao que escreve, mercê de um maior conhecimento das escolas, tem vindo a constatar que na sua cidade, o Porto, algumas escolas públicas rejeitam alunos que vão sendo empurrados de escolas em escola, uma espécie de sem-abrigo educativos.

Mais diz que, “No entanto, percorro documentos oficiais, blogues, sítios da Internet de professores, de sindicatos, de opinion makers e está lá bem claro que “só a rede pública promove a equidade e a igualdade de oportunidades, que só a rede pública é inclusiva e recebe todos os alunos”.

Mas não é verdade, conclui, a escola pública também exclui alunos, a escola pública nem sempre é inclusiva.

Tem razão Joaquim de Azevedo, a escola pública também exclui alunos.

Esta exclusão ocorre por várias razões, aliás, refere algumas. Algumas escolas públicas não querem alunos que comprometam resultados e posições no ranking, alunos que dão “mau ambiente”, alunos que ameaçam os indicadores estatísticos, para competir com escolas privadas que apresentam bons resultados, para se tornarem atractivas ás famílias. Talvez seja de considerar que este "elitismo" esteja relacionado com a sobrevalorização dos resultados da avaliação externa, traduzida nos incontornáveis rankings e até no aumento de créditos horários das escolas com melhores resultados e isto é resultante de políticas educativas recentes.

Talvez seja de recordar que talvez esta exclusão também esteja ligada a políticas educativas de há longos anos que não dotam as escolas de recursos ajustados às variáveis contextuais e características das comunidades educativas.

O Professor Joaquim de Azevedo fala também da desajustada designação dos TEIPs. Aqui concordo e também está relacionado com a exclusão verificada na escola pública. Em tempos, disse a um Secretário de Estado do ME que Portugal era um conjunto de TEIPs, alguns designados por Territórios Educativos de Intervenção Prioritária e a generalidade dos restantes são Territórios Educativos com a Intervenção Possível, e às vezes … não é possível. Não sei bem porquê, acho que não lhe agradou a afirmação.

Tem razão Joaquim de Azevedo, a escola pública também exclui alunos. Exclui alunos “guetizando-os” em espaços curriculares que são “de segunda” ou com um rótulo de que nunca mais se livram, passam a CEIs, por exemplo.

Exclui quando tem alunos trancados em unidades sem níveis significativos de participação nas actividades comuns da comunidade escolar. Muitas vezes não porque não sejam capazes, mas porque … é assim.

Tem razão Joaquim de Azevedo, a escola pública também exclui alunos.

Exclui alunos quando a acção social escolar é insuficiente para que todos possam aceder aos mesmos recursos.

Sim, a escola pública exclui alunos. Quem acompanha este espaço sabe que tantas vezes aqui o tenho referido e divulgados múltiplas precupações e exemplos neste ãmbito. E sabe também que entendo que esta exclusão envolvendo, evidentemente, responsabilidade das escolas não é da sua exclusiva responsabilidade. Décadas de políticas educativas em várias dimensões são fortemente contributivas para todo este cenário.

No entanto, apesar de tudo isto sou dos que tantas vezes tem escrito e afirmado em muitíssimas ocasiões:

Só a educação e a rede pública de qualidade podem promover equidade e igualdade de oportunidades.

Só a educação e a rede pública de qualidade podem ser verdadeiramente inclusivas e receber TODOS os alunos.

Só a educação e rede pública pode chegar a todos os territórios educativos e a todas as comunidades.

Só a educação e rede pública de qualidade promovem mobilidade social em circunstâncias de equidade no acesso.

Esta é a minha convicção e a inspiração para o que fazemos e pensamos, acho que também é a sua, Professor Joaquim de Azevedo.

Texto de Zé Morgado

DA COMUNICAÇÃO EM SALA DE AULA

Confesso que quando vi este título no Público, “Quando professores e alunos aprendem a comunicar, as coisas mudam na sala de aula”, fiquei algures entre o curioso e o perplexo.
A leitura da notícia deixou-me ainda mais, nem sei como dizer, talvez “enduvidado”, isto é, cheio de dúvidas.

Uma empresa especialista na formação de executivos, designadamente na área da comunicação, desenvolveu um programa de formação que envolveu professores e alunos de duas escolas de Lisboa sobre comunicação na sala de aula. A coisa correu muito bem, os professores já comunicam, os alunos já comunicam, tudo agora corre bem melhor e parece que o ME está interessado na ideia. Aqui passei a um estado talvez de inquietação.
Eu sei que está muito calor, estamos a sair das férias e ainda sem grandes rotinas, é Domingo, mas algumas notas.

Uma primeira referência para dizer logo de início que existem professores, e alunos naturalmente, que, como qualquer outra pessoa, poderão ser menos eficientes na comunicação, seja lá isso o que for. Todos passámos por experiências que ilustram isto.

No entanto, parece importante sublinhar que o trabalho em sala de aula assenta na comunicação entre professores e alunos, que a generalidade dos professores têm competências de comunicação, que a generalidade dos alunos têm competências de comunicação e que os eventuais problemas de comunicação em sala de aula, não decorrem, na sua esmagadora maioria, da falta de competência de alunos e professores na área da comunicação. Talvez eu esteja enganado pois a directora da empresa em Portugal, uma ex-jornalista, afirma “Todos falam, mas poucos comunicam. É o que temos constatado nas empresas e agora também nas salas de aulas”. Como se sabem, são contextos próximos e com as mesmas variáveis envolvidas. 

Antes de continuar deixem contar uma história. Há algum tempo em conversas com miúdos do 2º e 3º ciclo discutia-se o que era essa coisa de ser um bom professor.

A maioria dos miúdos envolvia-se activamente e a continuidade das referências levou à identificação de uma resposta que se poderia sintetizar na ideia de que "bom professor é o que fala com a gente e explica bem".

Este entendimento lembrou-me, cito-o aqui frequentemente, o Mestre João dos Santos quando afirmava que alguém tinha sido seu professor "porque foi seu amigo".

De facto, o sucesso dos processos de ensinar e aprender assenta em dois eixos fundamentais, a qualidade do ensinar e a relação entre quem ensina e quem aprende. Do meu ponto de vista, a grande maioria dos professores estará equipada sobre o ensinar.

A grande questão é que a nossa escola, de uma forma geral, não facilita a relação, ou seja, a comunicação. Esta dificuldade decorre, fundamentalmente da extensão dos conteúdos curriculares das diferentes disciplinas e do número excessivo de disciplinas, designadamente no 3º ciclo. Os professores, muitos deles, sentem-se "escravos" do programa que tem de ser dado e do pouco tempo disponível para a construção da relação. Existem disciplinas com um tempo semanal durante o qual é obviamente muito difícil construir qualquer relação com os alunos.

Muitas vezes digo que os professores "falam" para o programa, para o explicar, e os alunos "falam" para o programa para o aprender. Não falam entre si sendo que, além disso, existe um grupo significativo de alunos que, por diversas razões como dificuldades ou desmotivação, não conseguem "falar" com o programa. Para estes, os professores vêem-se obrigados a falar par controlar os seus (maus) comportamentos.

Acresce a esta questão o número de alunos por turma que os estudos identificam como uma variável que influencia significativamente a comunicação, qualidade e conteúdos, entre.

Por estas razões tantas vezes tenho escrito sobre mudanças que tornassem mais fácil podermos ouvir os miúdos dizer "a gente tem bons professores porque explicam bem e falam com a gente".

Esta ideia não tem nada de romântico nem de utópico, assenta em algo de muito simples, a educação constrói-se com a relação que se alimenta com a comunicação. Sempre.

Uma nota final para referir que acho lindamente que uma empresa com experiência de formação de executivos venha também formar o pessoal da escola. Porque não? São só mais uns a querer formar professores e … toda a ajuda é bem-vinda. Mas Senhores do ME, cautela com as intoxicações.

Texto de Zé Morgado

Câmara de Lisboa vai criar programa para fomentar a inclusão escolar

A Câmara Municipal de Lisboa vai criar um programa para a inclusão escolar e empregabilidade jovem, no âmbito do Pacto para o Desenvolvimento e Coesão Territorial da Área Metropolitana de Lisboa, anunciou esta quinta-feira o vereador dos Direitos Sociais. "Vamos desenvolver um programa de inclusão escolar", afirmou o vereador dos Direitos Sociais durante a inauguração da segunda Escola SOMOS, inserida no Programa Municipal de Educação para a Cidadania Democrática e Direitos Humanos.

No final da iniciativa, João Afonso explicou (...) que este programa se insere no Pacto para o Desenvolvimento e Coesão Territorial da Área Metropolitana de Lisboa e que o "objetivo é trabalhar várias dimensões da inclusão". "Vamos olhar o problema da inclusão social na sua origem [com jovens em idade escolar] e, depois, o passo seguinte é trabalhar com quem sai da escola e não tem emprego", referiu. João Afonso frisou também que o objetivo é trabalhar estas duas realidades em conjunto ao nível do diagnóstico, das medidas a aplicar e também da medição de resultados.

Apesar de não querer precisar quantos jovens o programa irá abranger, nem quando poderá ser posto em prática, João Afonso avançou que estará envolvida uma verba de dois milhões de euros, comparticipada em partes iguais por fundos comunitários e pela autarquia. O autarca precisou ainda que a Câmara está a estudar com o Governo a melhor forma de aplicar o programa.

"O objetivo é que seja uma política pública e que seja sustentável" no futuro, referiu, acrescentando que a intervenção "será maior onde há problemas de maior desigualdade" já identificados. A inauguração da segunda Escola SOMOS contou também com a presença do Secretário de Estado da Educação, João Costa.

Esta edição, que começa esta quinta-feira e decorre até quarta-feira, destina-se à comunidade escolar e terá 60 participantes. "O objetivo é trazer os direitos humanos para dentro da escola", afirmou o vereador João Afonso, acrescentando que "a escola SOMOS é dedicada a todos". Numa primeira fase, este programa irá formar multiplicadores, que terão a missão de "transmitir conhecimentos de forma disseminada, fluindo naturalmente", indicou o vereador perante os novos formandos.

O autarca disse também que a Câmara Municipal "lançou um concurso público para selecionar um parceiro que faça a organização destes cursos, alguém que vai gerir a bolsa de formadores e as ações que forem necessárias". Por seu turno, o secretário de Estado da Educação defendeu que "este programa é um sinal da inteligência do município", pois "alia inclusão e educação".

"Temos de pensar a escola na perspetiva de formadores de cidadania", sublinhou, acrescentando que esta é uma matéria "central no currículo" escolar. Aos formandos, João Costa desejou que "sejam multiplicadores muito poderosos", e que Lisboa "possa servir de exemplo e ser multiplicador para outros municípios".

Já a diretora do Agrupamento de Escolas de Alvalade, onde irá decorrer esta escola SOMOS, frisou a importância de iniciativas focadas nos direitos humanos. "Os jovens têm preconceitos e ideias formadas, por isso é importante que os professores encontrem espaços e tempo nas escolas para discutir com eles direitos humanos", considerou Dulce Chagas.

Professores de Português também querem flexibilidade nos programas do secundário

Os professores de Português defendem que os programas da disciplina no ensino secundário devem ser corrigidos para dar maior liberdade ao docente e adequar a matéria ao tempo de aulas previstas na carga letiva.

"Chegámos à conclusão que o programa não era exequível. É de tal forma extenso que não o conseguimos cumprir", disse (...) a presidente da Associação de Professores de Português (APP), ao comentar o programa do 10.º ano, que entrou em vigor no ano passado.

Edviges Antunes Ferreira sublinhou que o número de aulas previstas para o programa é "três ou quatro vezes superior" às que estão previstas na carga letiva para a disciplina.

"Este é um programa só de literatura. Não há tempo para algo fora do texto literário. Temos um cânone que espartilha o professor", lamentou.

Só com literatura, frisou, o aluno "não se prepara para ter uma perspetiva crítica" sobre outras questões.

Também a presidente da Associação Nacional de Professores de Português (ANPROPORT) admitiu que no 10.º ano alguns objetivos "não foram alcançados".

"Em algumas escolas não foi assim tão fácil. Deixaram conteúdos para o 11.º ano", afirmou Rosário Andorinha.

Para a responsável pela ANPROPORT, devem ser feitos ajustes, com uma reavaliação de todos os programas.

"Há uma necessidade de fazer reajustes, saber o que correu mal em cada escola", indicou, acrescentando: "Somos defensores deste programa, mas sem fundamentalismos".

Rosário Andorinha defendeu que o êxito passa também por "um grande trabalho de planificação" por parte do docente.

"Recusamos totalmente a mudança por mudar. É preciso conhecer os factos primeiro", sublinhou.

Edviges Ferreira antecipou, por seu lado, que o programa do 12.º ano - que entrará em vigor no ano letivo 2017 - 2018) deveria ser "corrigido antes de os livros serem feitos.

"Temo que possa acontecer com o 12.º ano o que aconteceu com as provas de aferição do 8.º ano, que foi um desastre", declarou.

Sobre o programa do 11.º ano, prestes a iniciar-se, afirmou que por vezes não leva os alunos a ler a obra completa: "Dizem os capítulos que devemos ler com os alunos".

"Os Maias" ou "A Ilustre Casa de Ramires" são obras obrigatórias, quando em anos anteriores os professores podiam escolher entre outros livros de Eça de Queiroz, referiu.

Em Cesário Verde, por exemplo, "a temática da mulher desaparece".

"Dão-nos uma lista de poemas e só podemos lecionar aqueles. Mesmo que queiramos ir mais longe, não há tempo", desabafou.

De acordo com a professora, em 2017-18 sairá do programa do 12.º ano o livro "Memorial do Convento" e entrará "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago.

"Mas depois de dois anos os professores já podem escolher outra obra. Porquê dois anos?, não confiam nos professores para conhecerem outros livros logo de início", questionou.

"Sentimos absoluta necessidade de reajustes para maior liberdade ao professor, retirar este ou aquele conteúdo", sustentou. No fundo, permitir que o docente "não esteja obcecado em cumprir cento e tal metas para cada aluno".

À semelhança do que aconteceu com os programas e metas de matemática no ensino básico e secundário, os professores de Português gostariam de ver alguma flexibilização na gestão das matérias que têm de leccionar.

Porém, (...) fonte do Ministério da Educação afirmou que, neste momento, "nada ainda está em curso" nesse sentido.